terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Eu poderia, se quisesse

A nossa vontade não é firme bastante; e é essa a origem de quase todas as nossas faltas. Se ela o fosse mais, seríamos muito mais perfeitos...

Calígula, o tirano de Roma, exclamou um dia: "Eu queria que todos os romanos juntos tivessem uma só cabeça, para lha cortar de um só golpe!".

-Olha meu filho: tu tens, na verdade, uma só cabeça a cortar - é a fraqueza da tua vontade.

Ouço, muitas vezes, os jovens dizerem: "Mas eu podia muito bem fazer isto ou aquilo, se quisesse".

Se eu quisesse... Sempre este "se".

Ora, estes jovens que pretendem ter vontade não procuram nunca servir-se dela. É este esforço que, no entanto, testemunharia que eles a têm verdadeiramente. Tais jovens assemelham-se às caricaturas de soldados que têm sempre a arma à cara, com aspecto terrível, como para dizer: "Atiro já!" e de que ninguém faz caso, porque nunca atiram.

- "Eu podia, se quisesse". Se... se... Ah! se simplesmente, este se lá não estivesse!

Nenhuma arte reclama sagacidade como a da formação da nossa alma, porque ela é mais nobre que o mármore mais puro e que o metal mais precioso.

Têm-te, por vezes, falado do livro arbítrio do homem. Temo que o tenham feito com demasiada frequência. Sim, a vontade humana é livre, mas é também fraca; e a tua, como a dos demais, a não ser que a tenhas exercitado há muito pouco tempo. Uma vontade firme não é um presente do céu que encontremos no berço - é um tesouro de muito valor que cada um de nós deve comprar com o preço de lutas incessantes. Seria então, ridículo imaginarmos que a nossa pode vir a ser tal, de um dia para o outro..., ridículo exclamarmos com entusiasmo: "A partir de hoje, quero ter uma vontade de ferro!" Esta vontade de ferro nunca a obteremos senão por um trabalho penoso e continuado.

A força de vontade mede-se pelos esforços feitos por cada qual para se procurar este tesouro, pelas violências que a si mesmo faz para se subtrair ao império dos sentidos.

Essa força consiste na auto-disciplina, no império dos sentimentos elevados da alma sobre os desejos materiais do corpo. A tua vontade assemelha-se a uma semente semeada na tua alma. Se a tratas, se ajudas a desenvolver-se, virá a ser um carvalho possante que resistirá a todas as tempestades. Mas, se não cuidares dela, as formigas de teus pequenos defeitos roê-la-ão e hão-de fazê-la apodrecer. A liberdade moral tem de ser o fruto de pequenos esforços continuados, de trabalho lento de aperfeiçoamento constante. A maior parte dos homens recuam diante deste trabalho austero que exige esforços quotidianos. Preferem ficar sob o jugo do pecado a empreender tal trabalho.

"Eu poderia, se quisesse...". Mas começa então a querer! Se quiseres vir ser um homem sério, é por aí que tens de começar. O "eu queria" e o "eu quero" diferem um do outro como os cãezinhos adormecidos nos joelhos de velhas damas, diferem dos bons cães de guarda. Os primeiros não sabem latir, nem morder, nem ser úteis de qualquer modo que seja; nada mais fazem que comer e ganir, e, não obstante, custa cara a sua manutenção. Os segundos não ganem, mas, se for preciso, não hesitam em "sentar os dentes" nas pernas do visitante importuno. Assim também, o jovem que tem vontade não se lamenta, mas brada bem alto contra as tentações do pecado - morde-as com todos os dentes para as impedir que o prejudiquem, e não as larga enquanto não tiver atingido o seu fim. E como se faz isso? Exatamente como dissemos acima. Faço-te, por exemplo, esta pergunta: "Querer seres o primeiro do teu curso?" - "Quero" - respondes-me. Então, digo-te eu: "Para a frente!". Quero dizer: "Começa imediatamente a estudar a tua lição de amanhã". Mas imediatamente, sem demora, sem esperar a próxima semana!... E depois - direito, esquerdo - ao assalto da dita lição. A tua mesa de trabalho é, de futuro, a fornalha na qual forjarás a tua boa ou má sorte.

Querer ser fiel às tuas orações? - "Quero!". Então começarás desde hoje, desde esta noite. - "Mas tenho tantos exercícios a fazer!". Não importa! Poderás sempre tirar ao dia cinco minutos para isso! - "De manhã, é necessário apressar-me para não chegar tarde à aula"... Nunca me farás acreditar que não podes levantar-te dez minutos mais cedo!

--------------------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Receba nossas atualizações