terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Egoísta... não!

Não é muito agradável ouvir dizer de alguém: "é um egoísta!". Porquanto, que é o egoísmo senão um falso amor-próprio? O amor-próprio, bem compreendido, é ordenado por Deus. E um instinto que ele depositou em nós, instinto este que faz subsistir o indivíduo, ... que nos leva a evitar tudo o que nos possa prejudicar. E o egoísmo não é mais que a caricatura do amor-próprio bem compreendido. O rapaz egoísta julga-se o centro do mundo; está persuadido de que tudo o mais foi criado para ele e que a única razão de ser da humanidade terrestre é servir os seus mil caprichos. Avalia apenas os acontecimentos históricos pelo proveito que deles pode tirar.

A criança quanto mais pequena é, tanto mais está sujeita à influência dos sentidos, que dizer - mais egoísta é. Bastará observar uma criança de quatro ou cinco anos. Quer possuir tudo o que vê. Junta todos os brinquedos que encontra no quarto e dispõe-os à sua frente, só para que nenhum fique para os outros. Nunca é demasiado cedo para começar a habituar uma criança ao desinteresse: mas também é verdade que é necessário usar de indulgência para com um bebê. É tolerável ainda que um menino recém-chegado ao colégio escreva à sua Mamãe, nos fins de Outubro:

"Tenho já três amigos no colégio; Júlio para o latim, Tiago para a aritmética e Paulo para a gramática." Mas quanto a ti, meu filho, cujo espírito se desenvolve cada vez mais, é conveniente reconhecer, à medida que vais crescendo, que o mundo não foi criado só para ti, que a tua pessoa não é precisamente a mais importante de todas, e que, à tua volta, vivem milhões de homens aos quais deves consideração. É preciso que o reconheças por ti próprio, como se a educação familiar não to tivesse ensinado... Chamamos egoísta ao que não quer compreender isto.

O que é singular é que os jovens são particularmente egoístas durante os anos da puberdade, - quer dizer, justamente, no tempo em que se sentem mais orgulhosos do seu espírito e saber. Hoje, se um rapaz de 13 a 17 anos é insuportável e irascível em casa, se arrelia continuamente os pais, irmãos e irmãs, se fecha com força as portas, se está sempre de mau humor, sempre insatisfeito, sem consideração por quem quer que seja, dizem: "é nervoso, o pobre rapaz!" Estão muito enganados. É egoísta "o pobre rapaz"! e está tudo dito! Se um jovem rico se vangloria, perante os colegas pobres, das magníficas viagens que fez durante as férias, é egoísmo. Deixar que a porta se feche quando se sabe que alguém vem atrás, é egoísmo. Rir junto de pessoas vítimas de um recente acontecimento triste, é egoísmo. Troçar dos outros e humilhar s que nos rodeiam, é ainda egoísmo. Esta enumeração poderia não mais acabar!

Começa a exercitar-te na renúncia durante a tua mocidade. Aquele que só procura exaltar-se na vida, o que está sempre pronto a calcar aos pés os interesses dos outros, prova um egoísmo muito vil. Mas como chegou a isso? Talvez tivesse começado, durante a infância, por coisas fúteis. Quando procurava amoras com os amigos, is à frente e largava para trás os braços das silvas, pouco lhe importando que lhes ferissem a cara! Era o primeiro... só isso lhe interessava!

Ao invés, que honroso não é para um jovem dizer-se dele: "É um nobre coração"! Um nobre coração é o contrário do egoísta... Se uma infelicidade atingiu o teu colega, procura consolá-lo com palavras de carinho: é próprio de um coração nobre. Se foi feliz em qualquer coisa, alegra-te com ele: é ainda próprio de um nobre coração. O egoísta, esse roer-se-á de inveja... Podes ainda praticar a abnegação partilhando a tua merenda com um colega pobre, ajudando um amigo a fazer o seu exercício, esforçando-te por ser agradável a outrem, falando corretamente aos criados, apanhando o chapéu que um estranho deixou cair, etc., etc. Já vês quanta alma, quantos pensamentos nobres e amor do próximo se podem pôr nos acontecimentos mais insignificantes da vida de estudante!
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*Extaído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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