terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A educação da vontade

Há três coisas que têm grande influência na vontade: o sentimento, a imaginação e o temperamento. De nenhuma delas somos totalmente senhores; o "livre arbítrio" do homem não é por isso completo em nós. Tu mesmo hás de já ter notado que, tal dia, te levantas triste e abatido, e que, no dia seguinte, ao contrário, sentes-te tão alegre e bem disposto que quase te apetece dançar; e não saberás dizer a razão nem do abatimento de ontem, nem da alegria de hoje.

O mesmo se pode dizer da imaginação. De repente e sem causa alguma, surgem na tua memória recordações de um acontecimento passado, ou se desenham sob as rugas da tua fronte ideias absurdas e imagens enganadoras. De onde vêm? Por que aparecem neste momento preciso? Não sabes dizê-lo... E muitas são as vezes que a imaginação nos mimoseia assim com mais devaneios, que nos mostra dificuldades enormes e obstáculos invencíveis no caminho dos nossos trabalhos para nos fazer aborrecê-los. Se tens um dente cariado para tratar ou extrair, o mais doloroso não é a ação do dentista - é a meio hora que passas na sala de espera, dando campo livre à imaginação que te mostra, exagerando-o atrozmente, o sofrimento que te espera.

Pois bem, meu filho, se não somos completamente senhores dos nossos sentimentos e da nossa imaginação, é-nos, todavia, necessário esforçarmo-nos por estender o reino da nossa vontade até à sua atividade; é-nos necessário velar sobre os sentimentos e lançar mãe dos rédeas da imaginação. Levantaste-te de mau humor? Não importa! Procura sorrir e cantar, e serás já vitorioso - pelo menos em parte.

Tens um exercício de álgebra a fazer. A imaginação pinta-o com imagens horríveis: "Escuta - diz-te ela - este problema é tão difícil que vais suas como um bezerro!" Deves contradizê-la, replicando-lhe: "Não é verdade! Enganas-te, minha cara imaginação! A solução não é tão terrível como ma apresentas; aumentas as dificuldades; quererias fazer-mas parecer maiores do que são... vou afrontá-las".

Como vês, a educação da vontade é um trabalho aturado com o fim de dominar todas as faculdades intelectuais que têm influência na sua ação, tais como: a inteligência, o sentimento, a memória, a imaginação, etc. Não basta, portanto, exercer e fortificar a vontade; é, principalmente, necessário esforçar-se por pô-la tão completamente quanto possível ao serviço dos mais elevados objetivos espirituais, isto é, pô-la sem reserva ao serviço da alma.

Aquele que quer vir a ser um caráter firme deve exercitar-se no domínio dos seus sentimentos na medida que lhe for possível. A causa de muitos pecados - modos bruscos, pensamentos de ciúme, ofensas irrefletidas, disputas (sobretudo disputas) - não está numa vontade má, mas numa vontade fraca que não sabe ainda levantar-se diante dos sentimentos que surgem de improviso. Não são precisos esforços extraordinários para se vencer, por exemplo, um pequeno mau humor; demasiado preguiçosos como são para se darem este pequeno trabalho!

O exercício no domínio dos sentimentos é, portanto, ao mesmo tempo, o exercício da vontade. A influencia do sentimento na vontade não consiste somente em a determinar à ação; faz-se sentir até no seu entusiasmo e na perseverança. Quem ousaria negar que um benefício sai mil vezes melhor do calor do coração do que de um frio clarão da razão? Um outro motivo ainda para educares os teus sentimentos é que a vontade, trabalhando sem o coração, poderia facilmente mudar-se em máquina de querer - insensível, egoísta e teimosa - o que não faria de ti senão uma vil caricatura de jovem de caráter impecável que queres vir a ser.

O homem prudente esforça-se não somente por vencer os seus sentimentos tristes, substituindo-os por outros mais alegres - mas ainda por guardar sempre a paz na alma.

O corpo e a alma estão em nós em estreita união... Quando te sentires desanimado, quando pressentires a tristeza invadir-te a alma sem saberes porquê, procura trazer um sorriso aos lábios, esfrega alegremente as mãos e verás que a tristeza desaparecerá. Quando sofreres uma dor física, ocupa o espírito com pensamentos alegres, e esquecerás em parte os sofrimentos. Ainda quando uma desgraça te visitar, procura tirar dela proveito espiritual.

Deficiendo discamus - aproveitemos mesmo as nossas faltas. Roubaram-te a carteira no ônibus? Não te deixes encolerizar, mas reflete um pouco: como foste tão distraído para não o notares, e que cuidados tomarás no futuro, para que isso não mais te aconteça? Pisaram-te o pé? Não deixes escapar o "ai" furioso que te queima os lábios, mas dize baixinho: "Esta dorzinha vale-me, ao menos, um pouco de auto-domínio".

Desejas ser um rei onipotente?

Sabe, mesmo esperando, estar contente!

Ficar sempre senhor dos seus sentimentos e nunca se deixar arrastar por eles - eis um alto grau de perfeição espiritual.
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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