terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"Devemos (...) encorajar mais uma vez o conceito de um "Jesus histórico"

[Esta carta foi transcrita do livro "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz", de C.S. Lewis. Esta correspondência se dá entre o experiente diabo (Fitafuso) e o seu sobrinho Vermebile. Lewis nos dá uma aula de como são as artimanhas e arapucas utilizadas pelo diabo para nos confundir. Hoje, Lewis se surpreenderia como nós demos tão rapidamente ao diabo o maior prêmio que ele poderia receber: não acreditar na existência dele; ou, acreditar em demasia e se sentir atraído por ele! Amigo da cruz]


Querido Vermebile,


Através dessa moça e de sua família asquerosa agora o paciente passa a conhecer mais e mais cristãos todos os dias, e cristãos bastante inteligentes também. Durante um bom tempo, será praticamente impossível eliminar a espiritualidade da sua vida. Pois bem; sendo assim, devemos corrompê-la. Sem dúvida você muitas vezes já se transformou num anjo de luz como mero exercício de exibicionismo. Agora é hora de fazer isso diante do Inimigo. O Mundo e a Carne nos desapontaram; resta um terceiro Poder. E a vitória que ele nos dá é a mais gloriosa de todas. No Inferno, um santo corrompido, um fariseu, um inquisidor ou um mago é ainda melhor passa-tempo do que um simples tirano ou um libertino.

Observando os novos amigos do seu paciente, descubro que o ponto mais vulnerável dele ao ataque é a fronteira entre a teologia e a política. Vários de seus novos amigos estão bastante interessados nas implicações sociais da religião deles. Isso, por si só, é uma coisa ruim; mas podemos tirar proveito disso.

Você perceberá que muitos escritores políticos Cristãos pensam que o Cristianismo começou a dar errado bem cedo, afastando-se da doutrina do seu Fundador. Devemos fazer uso dessa ideia para encorajar mais uma vez o conceito de um "Jesus histórico", que só será encontrado quando eles se livrarem dos "acúmulos e perversões" posteriores, para depois compará-lo com toda a tradição Cristã. Na última geração de seres humanos, nós conseguimos estimular uma interpretação do tal "Jesus histórico" em linhas mais liberais e humanitárias; agora formulamos um novo "Jesus histórico" em linhas Marxistas, catastróficas e revolucionárias. As vantagens dessas interpretações, que esperamos modificar a cada trinta anos mais ou menos, são inúmeras. Em primeiro lugar, todas tendem a direcionar a devoção dos homens para algo que não existe, pois cada "Jesus histórico" não existe na história. Os documentos dizem o que dizem, e não podem ser alterados; cada novo "Jesus histórico", portanto, tem de ser criado a partir desses documentos, suprimindo certos aspectos e exagerando outros, e também fazendo certas suposições (genial é o adjetivo que ensinamos os humanos a aplicar à coisas) nas quais, na vida comum do dia-a-dia, ninguém apostaria nem dez centavos, mas que são suficientes para produzir uma safra de novos Napoleões, novos Shakespeares e novos Swifts na lista dos novos títulos das editoras.

Em segundo lugar, cada uma dessas interpretações confia a importância do seu Jesus histórico a alguma estranha teoria que supõe-se que Ele tenha pregado. Ele tem de ser um "grande homem", no sentido moderno da expressão - um homem no fim de uma linha de raciocínio centrífuga e desequilibrada - um excêntrico que vende uma panaceia. Desse modo, conseguimos distrair a mente dos homens daquilo que Ele é e daquilo que Ele fez. Primeiro, fazemos d'Ele um simples mestre, e depois escondemos a própria semelhança essencial que existe entre Seus ensinamentos e aqueles de todos os outros grandes mestres morais. Pois não devemos permitir que os humanos percebam que todos os grandes moralistas são enviados pelo Inimigo - não para informar os homens, e sim para relembrá-los, para restabelecer aquelas obviedades morais primordiais, opondo-se ao contínuo obscurecimento que fazemos delas. Nós criamos os Sofistas; Ele cria um Sócrates para responder a eles.

E o nosso terceiro objetivo é destruir, com essas interpretações, a vida devocional. Substituímos a presença real do Inimigo, experimentada pêlos homens na prece e no sacramento, por uma figura pouco plausível, remota, obscura e esquisita, alguém que falava numa língua estranha e que morreu há muito tempo. Tal objeto certamente não é digno de adoração. Em vez, do Criador adorado pela sua criatura, em breve você terá apenas um líder aplaudido por um partidário, e finalmente um ilustre personagem aprovado por um historiador criterioso.

E, em quarto lugar, além de não possuir uma base histórica para esse Jesus que descreve, esse tipo de religião prova-se também falsa em outros aspectos históricos. Nenhuma nação, e pouquíssimas pessoas, chegam até o Inimigo pelo estudo histórico da mera biografia de Jesus. Na verdade, os fatos necessários para uma biografia completa foram ocultos dos homens. Os primeiros adeptos do Cristianismo se converteram por causa de um único fato histórico (a Ressurreição) e uma única doutrina teológica (a Redenção) que estava de acordo com um entendimento de pecado que eles já possuíam - pecado, deve-se ressaltar; não algo baseado em alguma lei falsa apresentada como novidade por algum "grande homem", e sim na velha e corriqueira lei moral universal que lhes foi ensinada por suas mães e amas-secas. Os "Evangelhos" vieram mais tarde e foram escritos não para criar Cristãos, e sim par edificar os Cristãos já existentes.

Portanto, devemos sempre promover o "Jesus histórico", por mais perigoso que isso possa parecer para nós em certos momentos. Mas, quanto à ligação existente tente entre o Cristianismo e a política, nossa posição um pouco mais delicada. Obviamente, não desejamos que os homens permitam que o Cristianismo domine sua vida política, porque estabelecer qualquer coisa parecida com uma sociedade realmente justa seria uma grande tragédia. Por outro lado, devemos desejar ardentemente que os homens tratem o Cristianismo como um meio para alcançar determinados fins; de preferência, é claro, como um meio para benefício próprio; mas, se não conseguirem isso, como um meio para qualquer coisa - mesmo que seja para a justiça social. Você deve fazer com que os homens primeiro vejam a justiça social como algo que o Inimigo exige, e fazer com que eles depois cheguem ao estágio no qual dão valor ao Cristianismo porque ele pode gerar a justiça social; pois o Inimigo não deseja ser usado como mera conveniência. Se assim fosse, os homens ou as nações que acreditam que devem restaurar a fé para criar uma sociedade justa poderiam muito bem utilizar o caminho que leva ao Céu como um atalho para a farmácia mais próxima. Felizmente, é bem fácil seduzir os humanos a pensar assim.

Hoje mesmo encontrei urna passagem na obra de um escritor Cristão na qual ele recomenda aos leitores a sua própria versão de Cristianismo, argumentando que "apenas essa fé pode sobreviver à morte das culturas antigas e ao nascimento de novas civilizações". Percebe a diferença? "Creia em tudo isso, não por ser algo verdadeiro, mas por alguma outra razão." Esse é o jogo.

Afetuosamente, seu tio, FITAFUSO

CLIVE STAPLES LEWIS, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, Carta 23, Oxford, 1942.

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