terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Contra a corrente

Imagina o generalíssimo de um grande exército em tempo de guerra. Faz os seus planos e, no gabinete silencioso, na retaguarda da frente de batalha, decide a sorte de centenas de milhares de homens. Ali é proibida a mais pequena palavra. O chefe de Estado-Maior entrega-se inteiramente ao estudo destes mapas gigantescos sobre os quais todas as estradas, pontes e posições de cada bateria e de cada guarda avançada são consideradas com meticuloso cuidado. No gabinete vizinho, é um vaivém incrível e contínuo. A cada instante toca o telefone ou se faz ouvir o matraquear do telégrafo. Automobilistas e motociclistas chegam de contínuo, para partirem quase imediatamente; os relatos sucedem-se; aviadores anunciam o resultado de seus radares. E nada deste barulho ensurdecedor deve chegar ao generalíssimo. Tem necessidade de tranquilidade e de sangue frio para refletir e redigir com clareza as suas ordens.

Este homem, neste quarto silencioso, é como que uma pedra imóvel na corrente dos acontecimentos; simboliza o caráter independente.

O jovem que sabe permanecer fiel às suas convicções, sem se deixar levar pelo barulho e pelas zombarias dos amigos, é este caráter. "Contra torrentem!" - contra a corrente!

Aquele que, pelo contrário, vive no receio contínuo do "que se dirá" não está ainda liberto; é escravo dos seus próprios receios.

O profeta Daniel, caído prisioneiro de Nabucodonosor aos catorze anos de idade, foi levado à corte do príncipe. Podes imaginar a quantas tentações esteve exposto neste meio de pompa incalculável! Sabes o que ele dizia, todas as manhãs? "Permanecerei fiel ao meu Deus, e não comerei da carne proibida." - A tentação durou três anos e Daniel não faltou uma vez sequer à sua promessa. Todos os atrativos que o rodeavam neste palácio de mármore não puderam fazê-lo desviar. Que belo caráter! - não achas?

Queres outros exemplos?... Lê.

Eis uma carta escrita por um rapaz que teve de abandonar os seus estudos para ir para a trincheira durante a guerra de 1914.

"Tinha caído em muito má companhia. Entre os meus camaradas, eu não tinha um amigo que pensasse como eu; estava só, absolutamente só... Oh! não era a alegria que faltava; mas levava-se tudo para o mal.

Mudava-se o texto das canções, misturando-lhe grosserias nas quais é até proibido pensar.

Liam-se em alta voz livros em que se descreviam as piores torpezas com não poucos pormenores. E obrigavam-me a escutar as coisas cuja existência eu ignorava em absoluto...

O pior de todos era o nosso cabo, que empregava todo o seu reduzido saber neste gênero de divertimentos... Eu desaparecia desta camaradagem logo que podia; mas, algumas vezes, não podia sair. Então estávamos todos sentados em volta da mesa e o cabo começava as suas chalaças. Procurava ocupar-me de outra coisa e não ouvia. Mas, se davam por isso, constrangiam-me a ouvir... Em breve, por causa disto, metiam-se comigo por tudo e por nada. Encarregavam-me de todas as faxinas desagradáveis, e era punido com a maior severidade pelas mais pequenas omissões, por coisas pelas quais nem sequer os outros eram repreendidos. Não podendo mais, ia participar, quando me mudaram de lugar... Hoje estou novamente livre de ouvir tais vilanias".

Que heroísmo e que independência, neste soldado que teve a coragem de lutar assim contra a corrente: "contra torrentem!".

Durante a Comuna, na Hungria, era proibido rezar na aula, antes das lições. Um dia, numa das escolas da capital, o "cidadão-professor" logo que entrou, mandou sentar os rapazes. Mas estes ficaram de pé. "O que? O que é isto? Sentem-se!" - repetiu-lhes ele. E os alunos disseram-lhe em coro: "Não rezamos ainda. Queremos fazê-lo" - "Mas vocês bem sabem que a oração é proibida" gritou o cidadão com os olhos a faiscar de raiva. - "Nós ainda não rezamos!" - repetiu o coro. Nada tinha a fazer o professor. - "Pois bem, gritou-lhes - rezai!" - Esta aula compunha-se de jovens heróis.

Um homem de vontade firme abre caminho por toda a parte, tal como uma queda de água por entre os rochedos; e as almas corajosas, os caracteres independentes levantam-se como pirâmides no deserto da imoralidade e da inconstância modernas. Nem todos têm a oportunidade de praticar um grande ato de heroísmo. Tu próprio, também não a terás, provavelmente. Mas a tua vida inteira pode tornar-se um exemplo de heroísmo, se cumprires todos os teus deveres quotidianos com zelo e fidelidade a toda a prova.

Sobretudo, não te deixes intimidar pelos tagarelas.

Se defenderes corajosamente os teus princípios, verás, muitas vezes, o inimigo bater em retirada, cheio de medo.

De ordinário, parecerá menos um touro selvagem irritado que um grande caracol que se apressa em esconder os tentáculos ao primeiro contato duro.

Nós - a geração de teus pais - verificamos com satisfação que a juventude de hoje é bem mais religiosa do que o era, há vinte ou trinta anos. Mas isto é também uma necessidade urgente; se não fosse assim, estaria perdida a cultura européia.

Durante a sua viagem ao Ocidente, o poeta indiano Rabindranath Tagore verificou com surpresa que, a respeito de moral, os costumes da Europa chamada cristã eram muito inferiores aos do Oriente pagão. O espírito materialista do século XIX que nega a alma e o seu destino eterno, que rejeita Deus, conduziu-nos, de fato, à beira do abismo, e nenhum poder humano poderá preservar-nos da queda, a não ser o de uma juventude profundamente religiosa que recobre os seus nobres entusiasmos pelo Ideal.

Uma juventude profundamente religiosa! Quer dizer que não deve ser cristã apenas nos registros, mas que o deve ser na vida de todos os dias, que deve marcar as consequências deste sublime pensamento: "somos jovens cristãos" no mais pequenino gesto, em todos os pensamentos, em todas as palavras, em todas as ações. Sim, meu filho, se pertences a esta juventude, é preciso que a tua vida dê provas disso, desde hoje, durante os teus anos de estudo, e, mais tarde, no caminho da tua profissão! Sempre e em tudo, é necessário que sejas fiel às tuas convicções religiosas!
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*Extaído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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