terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Como deve cada qual educar o seu caráter

Quero! Que força irresistível se desprende desta palavra! Com ela o impossível torna-se possível... Ao ver os Alpes cobertos de neve e de gelo, exclama-se quase instintivamente: "Impossível transpô-los!". Ora, Aníbal e Napoleão disseram: "Quero! É necessário! Hei de transpô-los!" - e transpuseram-nos com os seus exércitos.

Em 1866, antes da batalha de Lissa, o almirante austríaco Tegethoff quis dar à sua frota esta divisa: "Muss der sieg von Lissa werden" - é necessário que a batalha de Lissa seja uma vitória. Mas, mal se tinham começado a ditar as primeiras duas palavras, começou o combate. A divisa ficou no "é necessário" misterioso, e a força destas duas palavras levou os austríacos à vitória... "É necessário! Quero!". Que palavras poderosas!

Há já alguns anos, dava eu um passeio com jovens estudantes através de uma bela região montanhosa e arborizada. O dia estava lindo! Os pequenos jogaram, correram e divertiram-se com entusiasmo tal que nos esquecemos da hora do regresso; quando olhei o relógio, eram já seis e meia. Ora, a cidade estava a duas boas horas dali, e os pequenos tinham prometido a seus pais estar de volta às oito horas.

Que fazer, então? Ao som do meu apito, o grupo juntou-se à minha volta em menos de dois minutos. "Meus filhos - disse-lhes - estamos atrasados. São seis horas e meia; vós prometestes a vossos pais estar em casa às oito horas, e para chegar à cidade serão necessárias duas horas. No entanto, quereis vós estar em casa à hora marcada?"

"Sim, sim, queremos" - gritaram todos.

- "Muito bem. Então, apressemo-nos!... Luíz Guizado à frente... Todos os outros alinhem-se!... À direita! Marcha."

A esta ordem, vinte e oito pares de sapatos feriram o solo. "Direito, esquerdo! Direito, esquerdo. Não falem!... Não saiam do seu lugar!... Direito, esquerdo! Direito, esquerdo".

Ao cabo de meia hora, o entusiasmo começava a fraquejar. Os rapazes tinham corrido tanto todo o dia! "Bom - pensei - é o momento de fazer alguma coisa". E gritei-lhes: "Cantai, rapazes! Eu começo: Vamos, vamos, o sol nasceu..."

Tiago de Monforte, que tinha belíssima voz, encontrou imediatamente o mote e acertou por ele o passo. Os outros seguiram-lhe o exemplo. Depois da primeira canção, entoamos a segunda, a décima, a vigésima... Ninguém mais ficou atrás, ninguém saiu do lugar. Estava o relógio a começar a bater as oito horas quando o alegre grupo de estudantes entrava na cidade, - coberto de poeira e também de flores. Tínhamos andado em hora e meia um percurso que deveria levar duas horas. E isso porque? Com o auxílio de uma palavra mágica. Meus filhos - dissera-lhes: "Quero!".

Eu desejaria que, também para ti, meu filho, esta palavra tivesse o mesmo poder, que compreendesses bem que fonte de energia ela encerra.

Acaso, sabes tu querer?... Decerto, muitas vezes te acontece dizeres: "Se eu quisesse, poderia fazer isto ou aquilo... Se eu quisesse podia ser o primeiro do curso... Se eu quisesse podia se sempre pontual... Se eu quisesse, podia fazer todos os dias as orações da manhã e da noite...".

Quid quisque possit, nisi tentando nescit - diz o provérbio latino: O que alguém pode, não o sabe senão tentando fazê-lo. Admitamos que é sempre como dizes. Esforça-te, então, por querer, ao menos uma vez!
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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