terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A chama vacilante de uma vela

Conheço rapazes, de um singular temperamento, que trabalham todo o dia, que mexem em tudo, e que são, apesar dos seus esforços, vítimas lamentáveis de sua falta de vontade. São incapazes de se ocupar da mesma coisa durante mais de dez minutos. No fundo, nada mais fazem do que dissimular, com incomparável habilidade, a sua preguiça, dando a aparência de uma atividade febril.

Repara um pouco no que é a tarde de um tal estudante: depois de jantar, começa a procurar palavras de latim no dicionário. Três minutos depois, reproduz uma figura de desenho. Em breve, estendido no divã, lê em voz alta as campanhas de Napoleão. De repente, fecha o livro: lembrou-se de que umas provas de fotografia estavam ao sol desde o meio-dia, corre a retirar os quadros. Toma, depois, um romance, lê dezoito páginas e abandona-o para ir resolver um problema de física. Mal começou o trabalho, vem uma mosca pousar no seu caderno. Agarra-a com incrível habilidade, arranca-lhe uma asa e observa-a ao seu pequeno microscópio... A tarde passou. Vem a mãezinha lastimá-lo: "Meu querido filho, como tens trabalhado!" - Ela engana-se: o seu filho somente fingiu que trabalhava.

Conta a história que o imperador Domiciano encerrava-se, muitas vezes, no quarto sob o pretexto de estudar os mais importantes negócios de Estado, proibindo que o fossem perturbar. Mas, na realidade, era para se divertir a apanhar moscas para as picar com alfinetes... tal como o estudante, em presença da mãe, se conserva sentado, com a gravidade de um juiz, diante do seu Res Romanae e que, logo que a mamã se afasta, abre "O Esporte" e faz dele a sua distração.

É bom notar que um trabalho desprovido de continuidade e de método é muito mais fatigante que um estudo seguido; além disso, tal trabalho não tem valor algum, porque o espírito do homem é incapaz de se fixar com atenção em muitas coisas ao mesmo tempo. Não é, pois, de admirar que o estudante que mexe em tudo, mudando continuamente de assunto, não possa obter senão resultados medíocres. Tal rapaz, ainda que estude, nada aprende a fundo, e nada retém das coisas sérias. Vale muito mais estudar atentamente três horas, para ir brincar depois, com a consciência tranquila, outras três horas, do que ficar sentado diante dos livros durante seis horas, de cotovelos sobre a mesa, sonhando e bocejando, sem brincar nem aprender. Levantar-se-á aborrecido, como sempre se fica após um trabalho feito a meias. O melhor estudante, aquele que, um dia, virá a ser útil ao seu país, é aquele que, durante o tempo de estudo, esquece quem o rodeia, o tempo e até as preocupações - numa palavra, todo o mundo - para concentrar toda a atenção no trabalho que tem diante de si.

Deixa-me supor que não me vais censurar de eu afirmar que, se alguém se põe a meditar numa tese de Carnot enquanto dança a quadrilha, arrisca-se a escorregar e cair no chão. Como queres, então, que aquele que pensou na lição de dança da noite todo o tempo que deveria ter dedicado aos seus exercícios escolares, não apanhe uma nota má de aritmética?

Tu, meu filho, não te intrometas em tudo, e não faças senão uma coisa em cada tempo. O que começaste leva-o até ao fim e fá-lo de boa vontade. "Age quod agis" - o que fazes, fá-lo bem.

Uma opinião, tão moderna como errônea, chama às pessoas que saltam de um trabalho para outro, como almas penadas, - "homens ativos", "espíritos criadores". Que monstruosidade! As grandes descobertas e as grandes invenções, as que marcaram verdadeiro progresso da humanidade no campo da cultura espiritual ou técnica, nasceram todas de estudos laboriosos feitos no silêncio fértil dos laboratórios, das bibliotecas, dos escritórios particulares. Os grandes mestres da história, da ciência, da literatura, da arte ou da indústria, todos devem os respectivos triunfos à aplicação aturada que um longo trabalho concentrado nunca logrou enfraquecer. Se fosse possível atingir as alturas com um salto heróico, muitos jovens estariam prontos para o dar; mas é somente após centenas e milhares de pequenos passos, após esforços incansáveis, que lá se chega. Antes de lá chegar, é preciso evitar muitos obstáculos, escalar muitos rochedos, levantar-se nos picos... descê-los, às vezes. É, sobretudo, necessário trabalhar sempre. Acredita-me, meu filho, não é o homem que é capaz de agir audaciosamente, quando a ocasião se apresenta, que merece o nome de herói, mas aquele que sabe executar fielmente todas as pequenas ações de sua vida. Quando, depois do jantar, o repouso se te apresenta doce, e tu, em lugar de cederes ao sono, pegas no teu livro de álgebra, dás uma prova de coragem! Quando, de manhã, seria tão agradável ficar mais um pouco "no vale de lençóis", e tu, chegada a hora de levantar, saltas imediatamente da cama abaixo, dás provas de coragem! Quando o sol de Maio te sorri lá fora e te convida a sair para te divertires, se tu, por não teres ainda acabado os teus exercícios escolares, teimas em ficar junto do livro, isso representa ainda coragem! Quando te não agrada fazer uma coisa e, não obstante isso, a fazes de boa vontade porque é um preceito do Senhor, isso é sempre coragem, sempre heroísmo!
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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