terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Carta Pastoral de Dom Leme de 1916

A Carta Pastoral de Dom Leme de 1916

[Que os católicos mornos de hoje após lerem está atualíssima carta se covertam assim como Jackson de Figueiredo e tantos outros que, acordados pelas palavras inspiradas de Dom Leme, despertaram para a constante e urgente necessidade na Igreja de leigos comprometidos e com ardor dos santos! Amigo da Cruz]

… No Brasil (…) todos ou quase todos se dizem católicos e podem ser apontados os que como tais não se apresentem. Quer dizer que somos um povo inteiramente católico. Não há dúvida. Mas, haveremos chegado com isto a uma idéia precisa da situação religiosa do Brasil? não. (…)

Por índole, por educação e até por patriotismo, o nosso povo é, e não só pode deixar de ser, prosélito do catolicismo. Olhemos, sequer de relance, para os vinte Estados da Confederação. Desde o nome das cidades e das aldeias como dos mais remotos povoados do sertão, desde essas igrejas magníficas que se alteiam para o azul até as cruzes humildes que, orvalhadas das lágrimas do céu, ladeiam as estradas, despertando sentimentos de fé e guardando – quem sabe? – o derradeiro suspiro de um coração partido, tudo proclama as crenças religiosas do povo brasileiro. E não é uma religião entretecida, apenas, de tradições; estas se entrelaçam às maifestações variadas de fé intensa e profunda.

Sem falar nas encantadoras cenas de família, todos podem ver como regorgitam os nossos templos, por ocasião das solenidades culturais, riquíssimas de esplendor, na profusão de flores e das luminárias custosas. Quem é que não tem sentido vibrar-lhe na alma a mais íntima comoção, ao assistir a essas tão tradicionais e Tão populares romarias aos santuários da Virgem? Quem é que não se impressiona ante a suntuosidade de nossas procissões? (…)
A quem observar com ÂNIMO desprevenido, logo manifesto se faz que o brasileiro é profundamente católico. (…) Pouquíssimos, muito poucos, são os que não fazem batizar os filhos. Reduzido o número dos que não aceitam os últimos sacramentos da Igreja. (…) Fenômenos são esses que, sem induções violentas, uma única explicação padecem. É esta para nós uma coisa nacional; faz parte do nosso organismo social: Somos um país essencialmente católico.

Somos a maioria e quase totalidade da nação – acabamos de ver. Agora bem; perguntamos: somos uma maioria CONSCIA dos seus deveres religiosos e sociais? Infelizmente, parece-nos que não. Entre todos os outros, essenciais são os deveres religiosos. Ora, da grande maioria dos nossos católicos, quantos são os que se empenham em cumprir os mandamentos de Deus e da Igreja? É certo que os sacramentos são caudais divinos por onde corre a seiva vivificadora da fé. E, no entanto, parte avultada dos nossos católicos vive afastada dos sacramentos. A Penitência e a Eucaristia, focos de luz divina, são sacramentos conhecidos Tãp somente da minoria eleita dos nossos irmãos. E os outros? não carecem do perdão magnânimo de Cristo? não precisam, quem sabe, das luzes, do conforto e das inenarráveis graças do Pão Eucarístico? não são católicos! É que são católicos de nome, católicos por tradição e por hábito, católicos só de sentimento. Ensinou-lhes uma santa mãe a beijar a cruz e a Virgem. Eles ainda o fazem. Mas, das práticas cristãs, dessas que purificam e salvam, eles se apartaram desde os primeiros dias da mocidade. Balda de convições quanto aos seus deveres religiosos, grande parte dos nossos católicos o é também quanto aos deveres sociais. Fácil é verificá-lo.

Somos a maioria absoluta da nação absoluta da nação. Direitos inconcussos nos assistem com relação à sociedade civil e política, de que somos a maioria. Defendê-los, reclamá-los, fazê-los acatados, é dever inalienável. E nós não o temos cumprido. Na verdade, os católicos, somos a maioria do Brasil e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política. Não é católica a lei que nos rege. Da nossa fé prescindem os depositários da autoridade. Leigas são nossas escolas; leigo, o ensino. Na força armada da República, não se cuida da Religião. Enfim, na engrenagem do Brasil oficial não vemos uma só manifestação de vida católica. O mesmo se pode dizer de todos os ramos da vida pública. Anticatólicos ou indiferentes são as obras de nossa literatura. Vivem a achincalhar-nos os jornais que assinamos. Foge de todo à ação da Igreja a indústria, onde no meio de suas fábricas inúmeras, a religião deixa de exercer a sua missão moralizadora. O comércio de que nos provemos parece timbrar em fazer conhecido que não respeita as leis sagradas do descanso festivo. Hábitos novos, irrazoáveis e até ridículos, vai introduzindo no povo o snobismo cosmopolita. Carnavais transferidos para tempos de oração e penitência, danças exóticas e tudo o mais que o morfinismo inventou para distração de raças envelhecidas na saturação do prazer.


Que maioria-católica é essa, tão insensível, quando leis, governos, literatura, escolas, imprensa, indústria, comércio e todas as demais funções da vida nacional se revelam contrárias ou alheias aos princípios e práticas do catolicismo? É evidente, pois, que, apesar de sermos a maioria absoluta do Brasil, como nação, não temos e não vivemos vida católica. Quer dizer: somos uma maioria que não cumpre seus deveres sociais. Obliterados em nossa consciência os deveres religiosos e sociais, chegamos ao abuso máximo de formarmos uma grande força nacional, mas uma força que não atua e não influi, uma força inerte. Somos, pois, uma maioria ineficiente. Eis o grande mal. Grande mal, não há dúvida, porque importa no menosprezo inadmissível dos nossos deveres para com Deus, a sociedade e a pátria, deveres religiosos e sociais.

Os deveres religiosos, como não cumpri-los? Ou cremos em Deus e na sua Igreja ou não cremos. Sim? Então não podemos recusar obediência ampla e incondicional às suas leis sagradas. Não cremos em Deus e na Igreja? Nesse caso, não queiramos esconder a nossa descrença. Digamo-lo francamente: não somos católicos. Se, porém, temos a dita de o ser, não há tergiversação possível. Pautando a vida pelos ditamos do Credo e dos Mandamentos, deles não nos é permitido seleccionar o que nos agrada e o que nos contraria as paixões. Seria ofender a consciência e faltar à coerência. Dessa incoerência, menos rara do que se pensa, resulta a quase nenhuma influência dos princípios regeneradores do cristianismo nos atos da vida individual. E não é só. Privados do influxo benéfico e incomparável do Cristo, privamos a família, a sociedade e a pátria da nossa influência salvadora. Se Cristo não atua sobre a nossa vida individual, como poderemos atuar sobre o meio social?

E, no entanto, da influência social dos católicos, é certo que muito precisa a nossa pátria amada. Ela tem o direito indiscutível a exigir de nós uma floração de virtudes privadas e cívicas que, estimulando a todos no cumprimento do dever, em todos se infiltrem para germe da probidade e são patriotismo.

Da nossa parte, a consciência nos impele a nos desobrigarmos dos deveres que temos para com a sociedade e a pátria. Eles nascem da fé que nos anima e vivifica. Temos fé, somos possuidores da verdade! Como não querer propagá-la? Como não difundi-la? Seria desumano que pretendêssemos insular a nossa fé nas inebriações de perene doçura extática.

É natural, é cristão, é lógico que devo pôr todo o empenho em que meu Deus seja conhecido e amado. Devo esforçar-me para que se dilate o seu reinado e ele – o meu Jesus – viva e reine, impere e domine nos indivíduos, na família e na sociedade. Devo esforçar-me, em tudo e por tudo, para que o meu Deus, Mestre e Senhor, viva e reine, principalmente, nos indivíduos, na família e na sociedade que, irmanadas comigo nos laços do mesmo sangue, da mesma língua, das mesmas tradições, da mesma história e do mesmo porvir, comigo vivem sobre a mesma terra, debaixo do mesmo céu.


Sim, ao católico não pode ser indiferente que a sua pátria seja ou não aliada de Jesus Cristo. Seria trair a Jesus; seria trair a pátria! Eis por que, com todas as energias de nossa alma de católicos e brasileiros, urge rompamos com o marasmo atrofiante com que nos habituamos a ser uma maioria nominal, esquecida dos seus deveres, sem consciência dos seus direitos. É grande o mal, urgente é a cura. Tentá-lo – é obra de fé e ato de patriotismo.
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Fonte: A Carta Pastoral de S. Em. Sr. Cardeal D. Leme quando Arcebispo de Olinda, saudando os seus diocesanos. Vozes, Petrópolis, s/d (a original é de 16 de julho de 1916).

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