terça-feira, 19 de janeiro de 2010

As grandes almas

Quando falo de grandes almas, não penso nos heróis cuja ação maravilhou o mundo, cujo nome ressoa por toda a parte e que figuram em todos os jornais. A maior parte dos homens não tem uma ocasião sequer, no decurso de toda a sua vida, de praticar um ato de heroísmo. Os novos entusiasmam-se com facilidade. Contam com calor o que fariam numa expedição ao pólo Sul, afirmam que morreriam de boa vontade pela sua fé, que gostariam de dar a sua vida por Cristo nas missões, que estão prontos a derramar o seu sangue pela pátria... e muitas outras coisas semelhantes. De fato, este entusiasmo é muito bonito; mas, se não passar de um sonho, se não for amadurecido, ele não vale grande coisa na vida simples de cada dia. Porque semelhante sacrifício nunca será, provavelmente, pedido a estes rapazes.

O que é necessário, é procurar utilizar a força deste ardente entusiasmo aplicando-se aos deveres de cada dia. Desta forma, tal entusiasmo representará já uma energia motriz considerável. Se quiseres fazer um pequeno trajeto em carro elétrico, uma nota de mil escudos de nada te servirá. Se não tiveres trocos, o condutor depressa te obrigará a descer; não te trocos para quantia tão elevada. Pois bem, o mesmo se dá com a vida moral. Se não trocares por miúdos o teu ideal de patriotismo ou teu desejo de martírio, não poderás cumprir cabalmente os mandamentos da nossa religião, nem os teus deveres patrióticos - todos, até aos mais insignificantes, - com uma perseverança invencível. Hoje podes praticar a tua religião sem receio de martírio e, provavelmente, não terás ocasião de morrer como um herói pela pátria. Mas o que a religião e a nação esperam de ti, é, a partir de hoje, uma vida heróica! E isto é mais difícil. Tu bem sabes, pelo exemplo dos infelizes suicidas, que, muitas vezes, é necessária mais coragem para viver que para morrer.

Durante a guerra de 1914, foi preciso vacinar os soldados contra a cólera. E sabes o que então vi, com grande surpresa minha, no hospital da retaguarda onde prestei serviços? Aqueles homens robustos, que nada recearam sob uma chuva de metralha, começaram a tremer perante a pequena seringa de injeção! Já vês que o entusiasmo heróico não existe na vida cotidiana.

Conheço homens cuja coragem é mais leviandade e vaidade que virtude. É possível que estes homens não receiem a morte, mas o que temem certamente são os sofrimentos que a vida lhes pode reservar; e este receio torna-os fracos e pecadores. É a tremer que o público do circo admira os saltos perigosos dos acrobatas; mas acreditas que os que assim expõem a sua vida tão levianamente são incapazes, por exemplo, de vencer a mentira quando esta os pode livrar de dificuldades em circunstâncias de reduzida importância? É preciso menos coragem para tomar banho em julho, num rio gelado, que permanecer fiel aos princípios de pureza moral numa sociedade desorientada.

A coragem de dizer sempre a verdade! A coragem de permanecer honesto! A coragem de nunca abandonar os bons princípios! - Eis o que faz as grandes almas.
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*Extaído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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